Aluno de Barueri cria plataforma inspirada na NASA para monitorar asteroides
Davi Martins é estudante do curso de Informática para Internet do ITB Brasílio Flores

Aos 17 anos, Davi Martins une astronomia e programação para criar o NEO Radar, ferramenta baseada na mesma física utilizada pela NASA e que já chamou a atenção de especialistas de diversos países.
O fascínio de Davi Martins, de 17 anos, pelo espaço começou antes mesmo de aprender a falar. Segundo ele, sua primeira palavra foi "Lua". Hoje, estudante do curso de Informática para Internet do ITB Brasílio Flores, em Barueri, ele transformou essa paixão em um projeto científico que ultrapassou as fronteiras do Brasil.
Desenvolvido ao longo de sete meses, o NEO Radar é uma plataforma online capaz de monitorar, em tempo real, 41.812 asteroides próximos à Terra utilizando cálculos de mecânica orbital e dados científicos oficiais. O projeto, criado integralmente por Davi, utiliza as mesmas bases matemáticas empregadas por instituições como a NASA para calcular trajetórias e aproximações de objetos do Sistema Solar.
O resultado rapidamente ganhou visibilidade internacional.
Após o lançamento, o NEO Radar foi debatido no Hacker News, uma das principais comunidades mundiais de tecnologia. O projeto também despertou o interesse de um entusiasta em astrofísica, que questionou possíveis aplicações em sistemas de defesa planetária, além de receber contato de um astrônomo do Farpoint Observatory, nos Estados Unidos, interessado em compartilhar a ferramenta com pesquisadores do observatório.
Disponível gratuitamente em neoradar.space, o projeto possui código aberto no GitHub, permitindo que desenvolvedores de diferentes países acompanhem sua evolução e contribuam para seu desenvolvimento.
Paixão pela ciência desde a infância
O interesse pela astronomia acompanha Davi desde muito pequeno.
Enquanto outras crianças assistiam desenhos animados, ele passava horas vendo documentários sobre o universo, planetas e estrelas.
Em 2022, essa curiosidade ganhou incentivo dentro da escola. A professora de Ciências, Josiane Ponce, o estimulou a participar da Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA). Na primeira participação, ficou a apenas 0,2 ponto de conquistar uma medalha de bronze.
A pequena diferença serviu de motivação.
No ano seguinte, dedicou-se intensamente aos estudos, alcançou nota 9,2 e conquistou a medalha de ouro.
A programação também surgiu cedo em sua trajetória. Aos nove anos, enquanto utilizava a plataforma Khan Academy, descobriu uma área voltada ao ensino de programação e passou a aprender códigos de forma autodidata. Em 2023, ingressou no ITB Brasílio Flores, onde aprofundou seus conhecimentos em desenvolvimento de software.
Ciência na prática
A ideia do NEO Radar nasceu da vontade de construir um projeto que reunisse suas duas maiores paixões: astronomia e programação.
Inspirado pela plataforma Eyes on the Asteroids, da NASA, Davi decidiu desenvolver sua própria ferramenta para entender como funcionavam os cálculos por trás da visualização dos corpos celestes.
Foram cinco meses de planejamento e dois meses de programação intensa.
A plataforma utiliza Node.js, JavaScript e Three.js para criar uma visualização tridimensional dos objetos espaciais. Os dados são obtidos diretamente do Minor Planet Center, órgão oficial da União Astronômica Internacional responsável pelo catálogo de pequenos corpos do Sistema Solar, e do JPL Horizons, sistema de efemérides da NASA.
Atualmente, o catálogo reúne 41.812 asteroides, enquanto os 47 objetos considerados prioritários têm suas posições atualizadas em tempo real.
Precisão validada
O maior desafio foi reproduzir corretamente a física orbital.
Segundo Davi, qualquer erro matemático fazia com que os asteroides aparecessem em posições incorretas.
Após diversas validações comparando os resultados do sistema com os cálculos do JPL Horizons, o NEO Radar alcançou uma margem de erro de aproximadamente 412 quilômetros em uma simulação de 50 anos, índice considerado bastante preciso para um projeto desenvolvido individualmente.
Além do desenvolvimento do NEO Radar, Davi também vem acumulando resultados expressivos em olimpíadas científicas.
Hoje possui seis medalhas em competições nacionais e internacionais e, em 2026, foi novamente selecionado para a seletiva internacional da Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA).
Outra conquista marcante foi a medalha na Olimpíada Nacional de Ciências (ONC), que lhe garantiu participação no ASE 2025, evento internacional onde esteve ao lado de astronautas da NASA e da SpaceX, profissionais que participaram de missões na Estação Espacial Internacional.
Para o estudante, essas conquistas demonstram que jovens da rede pública podem competir em alto nível na ciência.
Próximos desafios
O sonho de Davi agora é cursar Ciência da Computação no Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das universidades mais prestigiadas do mundo.
Enquanto isso, pretende continuar evoluindo o NEO Radar, aprimorando os cálculos relacionados aos cometas, melhorando o desempenho da plataforma em dispositivos móveis e ampliando a participação da comunidade internacional no desenvolvimento do projeto.
Mesmo com o reconhecimento crescente, ele afirma que pretende manter a ferramenta como software livre.
"Acredito que ferramentas de educação científica devem ser acessíveis a qualquer pessoa. Se um dia o projeto crescer ainda mais, quero que isso aconteça sobre uma base aberta e colaborativa."
Para outros estudantes que desejam seguir carreira na ciência e na tecnologia, Davi deixa um conselho baseado na própria experiência:
"Escolha um problema que realmente desperte sua curiosidade e comece. Não espere saber tudo antes de dar o primeiro passo. Eu não sabia implementar mecânica orbital quando comecei. Aprendi fazendo."